sábado, 12 de dezembro de 2009

E a arte abre alas à sensibilidade

Ainda empolgada com a discussão do dia anterior, inicio a manhã da terça-feira com grandes expectativas. A atividade inicial sugerida pela professora tratava-se de relatarmos de forma escrita experiências positivas ou negativas em atendimentos à saúde. A turma foi bem criativa e miraculasomente transformou trágicos acontecimentos, experenciados na nossa tão conturbada formação médica, em crônicas ricas de poesia que nos inquietaram por retratarem cenas reais. Particulamente, relembrei dois episódios lamentáveis dos quais fiz parte.
O primeiro tratou-se de uma pesquisa sobre os impactos do uso de agrotóxicos na saúde dos trabalhadores. Durante o mês de julho viajei para o município de Quixeré imbuída da função de entrevistar trabalhadores/as possivelmente acometidos/as por intoxicação aguda devido ao uso de agrotóxicos. Uma atividade que a princípio parecia simples transformou-se em uma das principais vivências sobre o sistema público de saúde do nosso país. Pude conhecer a realidade do precário Hospital Municipal de Quixeré, em greve há alguns meses devido as condições insalubres de atendimento e de trabalho. A greve era protagonizada pelas técnicas de enfermagem que não suportavam mais se submeter aquela situação de exploração, chegando a receber menos de um salário mínimo por mês. Os absurdos não paravam por aí, os poucos atendimentos à saúde que haviam, apenas as emergências, eram realizados por médicos que eram incapazes de olhar para os pacientes, exame físico então, era coisa de outro mundo. A cada consulta acredito que eles se desafiavam a bater o recorde de atender em menos tempo. Enquanto isso, a população de Quixeré tenta continuar sobrevivendo e de vez em quando surge alguns que reivindicam seus direitos e dignamente organizam uma greve por não entender onde foi parar aquele artigo da constituição que assegura que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado.
Outra recordação difícil de ser esquecida se concretizou há alguns meses, durante uma aula prática no módulo de ginecologia, quando eu e alguns colegas assistimos a uma consulta feita por um "médico" ginecologista. Além de bombardear as pacientes de perguntas, ele nunca as deixava responder e em quase todas as vezes induzia as respostas delas. Mesmo as pacientes tendo determinadas queixas, ele as ignorava e fugia para outra abordagem totalmente descontextualizada. Parafrasendo certo amigo meu, saí de lá, além de muito frustrada, com uma lição de como não ser médica.É, será que as coisas tem que ser assim? Não, não vou me adaptar...
Após esse momento de diálogo fraterno, fomos emocionados ao assistir a um documentário que retrata a vida de pessoas com Síndrome de Down. Foi impactante constatar como a nossa sociedade cria padrões e neles se assegura de maneira incontestável. Temos que ser iguais, nos vestir iguais, parecer iguais, pensar iguais e ter preconceitos iguais. Tudo o que soa diferente é crime, e o que é pior, é pecado. Li certa vez e gostei bastante de um comentário sobre a diversidade. Nós não devemos apenas tolerar e aceitar os diferentes, isso é muito pouco, nós devemos é estimular, se alegrar, admirar e festejar as diferenças, principalmente quando elas são desafiantes para aqueles que não estão na curva normal delineada por nossas (i)morais.

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